Às vezes, é preciso olhar a casa, não como quem a vigia, tampouco como quem precisa limpá-la.
Olhar a casa nos seus cantos — de poeiras, fios e esquecimentos — para lembrar que neles fica um resto de vida.
Olhar pela janela como quem tem tempo (e esperança) de tornar real tantos desejos impossíveis.
Ver o estrado, o porta-panela e a estante, antigas árvores de raízes agora tão distantes.
Espiar os ímãs na geladeira, esses pequenos recortes de memórias inteiras; folhear os livros, tanto os lidos quanto os esquecidos; reclamar dos pratos sujos, da alma impura e do barulho insistente que faz a fechadura.
Observar se a planta cresce, se a torneira pinga e se o lençol de elástico ainda estica.
Ver a casa assim, silenciosa e faladeira, sem eira nem beira, de gavetas entupidas, comunicando — em tudo — nossos suspiros de vida.
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