Aqui, pela janela, passa mico, maritaca, tucano e até um gavião. Não é mata nem roça, mas sim um daqueles bairros de capital em que há lotes grandes — com parente vivendo na casa da frente e na casa do fundo; casa chique com área gourmet, prédio antigo com azulejo faltando e também prédio novo com vista para a serra.
Os ferroviários vieram primeiro: foram povoando o bairro com suas casinhas de platibanda e degrau, janelas de madeira, muros baixinhos e alpendres de piso geométrico. Antes de o sol nascer, uns já desciam as ladeiras do bairro rumo à linha do trem. Desceram e subiram, subiram e desceram, até desaparecerem. Foram-se as casas e os homens do trem.
Ficaram seus filhos, que tiveram outros filhos, que se transformaram em netos e bisnetos. Um desses que, por genética ou herança, ainda sabe olhar a vida pela janela. E se espanta com os bichos que, a despeito dos homens, não sabem de casa nem de trem, mas conhecem o céu e caçam comida, sedentos que são de liberdade.
E assim, o bairro feito de gente e construção, segue. Som de maritacas e carros, barulho de miquinho e criança logo cedo. Janelas que se abrem, umas para o trabalho, outras para o nada - porque há sempre alguém tentando entender o que fica e o que passa.
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