Tornar-se a diretora da corporação era o convite que ela havia esperado por longos anos. Algum tempo após a conclusão da faculdade, foi determinada o suficiente para plantar, pelo caminho, as sementes das quais ela esperava, com íntima certeza, colher os frutos um dia. Acreditava, piamente, que o universo conspiraria a favor dela! Não por acaso, havia investido no curso de Inglês com afinco, se especializado em três diferentes cursos sobre Gestão Empresarial e lido tudo quanto fosse possível sobre desenvolvimento pessoal. Tinha se transformado em uma enciclopédia ambulante sobre meta, ação e resultado. E o que havia sorvido em teoria, desempenhou na prática.
Naquele momento, mudar-se do apartamento e do seu estado natal era apenas o passo conclusivo de um sonho esperado! Por isso, as caixas da mudança estavam por toda parte. Cada uma nomeada de acordo com a sua organização de praxe: pratos, talheres, livros, roupas de frio, lembranças de viagens, entre outras dezenas de itens, dizendo a ela como a vida podia ser repartida por seções. E, enquanto andava pelo imóvel fazendo as últimas verificações, deparou-se com o espelho de corpo inteiro que havia ficado na parede, agora nua e branca, do quarto.
Parada diante dele, olhou de uma ponta à outra a moldura de madeira — desenhada em formato de arabescos e pintada de ouro velho — ainda conservada, mas percebeu algumas pequenas manchas no espelho que já denunciavam como o objeto estava com ela há anos. Havia sido comprado com o primeiro salário recebido na atual empresa, pois queria um espelho que mostrasse com clareza se as peças que escolhia para vestir estavam adequadas aos seus objetivos. E assim foi, por mais de 20 anos, diante do amigo sincero: cortou o cabelo em diferentes versões, seguiu a moda das saias lápis, usou blusas de cortes retos, permitiu-se usar vestidos florais com cores discretas, enfeitou o dorso com toda a sorte de colares e viu crescer, diante dos seus olhos admirados, a barriga de suas duas gestações. Espelho e mulher haviam sobrevivido para além de duas décadas, e, por mais que ambos não tivessem agora a pele tão brilhante quanto antes, ainda conservavam uma beleza evidente. Ela sabia disso porque encarava seu reflexo diariamente, conferindo de perto cada nova ruga que se desenhava no rosto.
_Estou envelhecendo! dizia em voz baixa, quase consternada.
Talvez, por isso, com a nova vida que se anunciava, chegou à conclusão de que era momento de também deixá-lo para trás e comprar outro espelho que contasse outra história: não a dos vinte e poucos anos até aqui, mas a dos seus quarenta e tantos. E, resoluta, o embrulhou com cuidado em grossas camadas de plástico-bolha. Colocou-o no carro para levá-lo à casa da mãe, onde o reflexo já não era mais um problema, mas uma constatação.
A genitora, portanto, o recebeu com alegria: adorava aquele objeto que, segundo ela, parecia ter saído de uma casa de novela! Desembrulhou-o com o esmero de quem tira a roupinha de um bebê, limpou-o com um pano branco e macio e o pendurou na parede mais iluminada do quarto. Assim que a filha saiu, colocou o vestido de brocado azul, os sapatos de bico fino e a gargantilha de ouro combinada com o par de brincos. Passou o batom de um suave rosado, caprichou na máscara de cílios, deu leves batidinhas na bochecha para acentuar o ar de saúde e alinhou os cabelos prateados na altura dos ombros. Diante do espelho, afastou-se para se ver de corpo inteiro, reluzente na sua cor preferida! Não era mais uma menina de 20 anos apaixonada pelo namorado, tampouco uma mulher de 40 sobrecarregada de obrigações, mas uma senhora de 70 anos sentindo-se livre das imposições mundanas.
_Um espelho tão bonito como este merece alguém tão feliz como eu! disse, olhando-se com afeto e sorrindo com gratidão.
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